Capa do romance A Dívida que nos Uniu

A Dívida que nos Uniu

8.9 / 10.0
Em A Dívida que nos Uniu, Ana é forçada a um casamento arranjado com Pedro, um fazendeiro viúvo e frio. Este romance modern explora o choque entre a busca por liberdade e uma obrigação inesperada. Descubra como essa convivência transforma o destino deles nesta web novel imperdível.
Resumo de A Dívida que nos Uniu
Pedro Alencar é um fazendeiro viúvo de 45 anos que vive isolado em suas terras. Sua rotina solitária muda drasticamente quando José Oliveira, para quitar uma dívida, oferece sua filha Ana em casamento. Aos 22 anos, a jovem rebelde e livre é forçada ao acordo, mas não pretende se submeter ao marido frio. Após um acidente, a tensão entre eles dá lugar a uma conexão profunda. O que era obrigação vira respeito e um amor inesperado entre dois corações distintos.
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A Dívida que nos Uniu Capítulo 1

O sol mal despontava no horizonte quando Pedro Alencar já estava de pé.

A fazenda despertava aos poucos sob seus comandos silenciosos: o mugido distante do gado, o ranger da porteira velha, o cheiro de terra molhada misturado ao aroma forte do café que ele mesmo coava no fogão a lenha. Aos quarenta e cinco anos, Pedro era um homem imponente... alto, ombros largos moldados pelo trabalho duro, mãos calejadas que pareciam feitas para segurar rédeas e arreios. Os cabelos levemente ondulados que exibiam fios grisalhos nas têmporas, e a barba por fazer dava-lhe um ar permanentemente fechado, quase inacessível.

Desde que enviuvou, ele se tornou ainda mais recluso. A filha adulta morava no exterior e raramente aparecia. A casa que antes ecoava risadas de criança e conversas animadas, agora guardava apenas o silêncio e o peso das lembranças. Vivia sozinho na casa, não tinha empregada para cozinhar ou cuidar de suas coisas, pois não queria ter alguém por perto andando a toda hora pela casa, então optou por ficar assim, apenas aceitou que uma vez na semana a mulher de um de seus empregados da fazenda vinha até a casa para limpar o ambiente.

Pedro repetia para si mesmo que estava bem assim. Porém uma dívida precisou ser cobrada.

Anos antes, José Oliveira pediu dinheiro emprestado para salvar sua propriedade. Pedro o ajudou sem pestanejar, eram vizinhos, conhecidos de longa data. Mas o tempo passou, os prazos venceram e o dinheiro nunca voltou. Quando Pedro finalmente decidiu cobrar, José apareceu com uma proposta que o pegou desprevenido.

- Tenho algo melhor do que dinheiro - disse José, o peito estufado de um orgulho antiquado. - Minha filha.

Pedro soltou uma risada seca, incrédula.

- Você enlouqueceu, José?

- Ana tem vinte e dois anos. É bonita, prendada. Sabe cozinhar, limpar, cuidar da casa como ninguém. Você é um homem sozinho nessa casa enorme... Ela seria uma boa companhia. Uma boa esposa.

- Eu não preciso de esposa. Preciso do meu dinheiro.

José baixou a voz, mas não recuou.

- Pense bem, Pedro. Você vive como um fantasma aqui. Ela traria vida de volta pra essa casa.

Pedro recusou na hora. Mas os dias seguintes foram longos. A solidão pesava mais do que ele admitia. As noites se arrastavam, a casa parecia crescer ao redor dele. Após uma semana de reflexões silenciosas na varanda, ele aceitou.

O que Pedro não sabia ou preferia ignorar, era que "obediente" era a última palavra que definia Ana Oliveira.

Quando soube do acordo, Ana transformou a casa dos pais em um campo de batalha. Gritou, chorou, quebrou pratos contra a parede, derrubou cadeiras.

- Eu não sou mercadoria, pai! - berrou ela, os olhos faiscando de raiva.

- Você não pode me vender como se eu fosse uma vaca!

José permaneceu impassível, a voz baixa e cortante.

- Você vai se casar com ele, Ana. Ou vamos perder tudo. É isso mesmo que você quer? Que eu sua mãe e sua tia já em uma certa idade vamos parar na rua? Eu devo muito dinheiro a ele, e nunca vou conseguir pagar, nem que eu leve uma vida!

- Isso é chantagem!

- É sobrevivência. E você vai obedecer sim!

Sob ameaças emocionais e pressão constante, Ana cedeu não por submissão, mas por exaustão e medo do que o pai poderia fazer com ela.

O casamento foi na fazenda de Pedro: simples, frio, quase funéreo. Apenas José, a mãe e a tia de Ana como testemunhas. Sem convidados, sem festa, sem sorrisos. Nem a filha de Pedro apareceu.

Quando o juiz declarou-os marido e mulher, não houve beijo, apenas um aceno seco e um aperto de mãos formal.

A primeira noite na mansão foi um teste de resistência para Ana.

O sol já se punha quando Pedro a levou para dentro da casa. A entrada principal exalava um cheiro de madeira antiga e cera de chão, misturado ao leve aroma de café que ainda pairava da cozinha. Os corredores eram largos, as paredes cobertas de retratos emoldurados de antepassados que pareciam observá-la com desaprovação. Tudo estava bem limpo e organizado, os móveis em madeira rústica que pareciam residir ali a muitos anos, tudo muito bem preservado.

Pedro caminhava à frente, sem dizer nada, carregando a pequena mala dela como se fosse um fardo qualquer.

Ele parou diante de uma das portas do andar superior.

- Esse é o seu quarto - disse ele, a voz grave e neutra, abrindo a porta.

- Tem tudo que precisa. Banheiro privativo, armário vazio. Se quiser trocar alguma coisa, me avise.

Ana entrou devagar. O quarto era amplo, com uma cama de casal antiga de madeira escura, lençóis brancos impecáveis, combinando perfeitamente com as cortinas e uma leve fragância de lavanda no ar. Também havia uma cômoda antiga e uma janela grande que dava para os pastos escuros. Um abajur de luz amarelada iluminava o ambiente, mas não conseguia afastar a sensação de vazio.

Pedro ficou na porta, sem entrar.

- Boa noite - murmurou ele, já se virando para ir embora.

Ana se virou rápido, o coração acelerado de raiva e medo misturados.

- Espera aí. É só isso? Você me arrasta pra cá, me casa na marra e agora me deixa sozinha nesse mausoléu?

Pedro parou, os ombros tensos. Virou-se devagar.

- Eu não arrastei ninguém. Você aceitou.

- Aceitei porque meu pai me encurralou! - rebateu ela, a voz tremendo. - Mas não pense que vou fingir que isso é normal. Que vou dormir tranquila sabendo que vendi minha liberdade por uma dívida alheia.

Ele a encarou por um longo momento, os olhos escuros indecifráveis.

- Ninguém pediu pra você fingir nada. Durma. Amanhã a gente conversa.

- E se eu não quiser dormir aqui? Se eu quiser ir embora agora?

Pedro deu um passo para dentro do quarto, a presença dele preenchendo o espaço.

- A porta está aberta. Mas lá fora tem estrada de terra, noite escura e nada além de mato. Se for embora, vai a pé.

E seu pai... bem, você sabe melhor do que eu o que ele faria.

Ana sentiu um nó na garganta. Ele não ameaçava, apenas constatava. E isso doía mais.

- Você é um bruto - sussurrou ela, virando o rosto para não deixar as lágrimas caírem.

- Talvez. Mas não sou mentiroso. - Ele fez uma pausa. - Se precisar de algo, meu quarto fica no fim do corredor. Não vou trancar a porta.

Sem mais palavras, Pedro saiu e fechou a porta com cuidado.

Ana ficou parada no meio do quarto, os braços cruzados sobre o peito como se pudesse se proteger do silêncio que a engolia. Sentou-se na beira da cama, os dedos apertando o lençol. Ouvia o ranger distante da madeira da casa se acomodando, o vento batendo nas janelas, o coaxar de sapos nos pastos. Nada de risadas, nada de música, nada da tia contando histórias na cozinha.

Pela primeira vez na vida, sentiu-se verdadeiramente sozinha.

Deitou-se vestida, sem nem tirar os sapatos. Olhou para o teto alto, as lágrimas escorrendo silenciosas pelas têmporas. Pensou na mãe, na tia, na liberdade que tinha perdido em um dia. Pensou em Pedro, aquele homem fechado, de poucas palavras, que a olhara com algo que não era raiva, nem pena. Era... resignação?

Não dormiu direito. Virou-se na cama enorme, o corpo tenso, ouvindo cada ruído da casa como se fosse uma ameaça. Em algum momento da madrugada, ouviu passos leves no corredor - Pedro, provavelmente, verificando algo na varanda. Ele não parou na porta dela. Apenas passou.

Ana fechou os olhos e sussurrou para si mesma:

- Isso não vai durar. Eu vou embora. De um jeito ou de outro.

Mas, no fundo, uma vozinha traiçoeira perguntava: E se não for tão ruim assim?

***

Os dias passavam e a convivência entre eles era uma guerra, Ana não cedia, Pedro a ignorava o que a fazia ficar mais irada com a situação.

Ana se recusava a bancar a esposa submissa. Respondia com ironia, questionava ordens, enfrentava Pedro sem hesitar.

- Se você acha que vou ficar aqui lavando sua cueca e cozinhando feijão como se nada tivesse acontecido, está muito enganado, disse ela certa manhã, cruzando os braços na cozinha.

Pedro ergueu uma sobrancelha, a voz grave e contida.

- Ninguém pediu pra você virar empregada. Mas enquanto estiver debaixo do meu teto, vai respeitar a casa.

- Respeitar? Você me comprou, Pedro. Respeito se conquista, não se exige.

Ele a encarou por um longo segundo, os olhos escuros indecifráveis.

- Então conquiste o seu espaço. Mas não espere que eu corra atrás.

Dormiam em quartos separados, quase não se falavam e quando se falavam eram trocadilhos de provocações.

A casa agora abrigava dois silêncios que colidiam como trovões distantes.

Ela o chamava de bruto nas costas.

Ele a chamava de imprudente quando ela saía sozinha pela propriedade.

E, ainda assim, algo invisível começava a se formar entre eles.

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