Seguir
Capítulos
Compartilhar
Capa do romance A Mentira no Coração do Hospital

A Mentira no Coração do Hospital

Ao acordar no hospital, recebi a pior notícia: meu filho não resistiu. Pedro, meu marido médico, priorizou salvar o bebê de sua ex-namorada, Eva, deixando o nosso morrer. Diante da minha dor, ele e a sogra, Helena, chamaram-me de histérica. Descobri que Pedro adulterou registros para ocultar sua negligência cruel. Com o apoio de Tiago e Sofia, decidi expor toda a farsa. Não serei mais submissa; vou destruir o silêncio que ele tentou comprar e revelar a verdade.
Capítulos
Compartilhar

Capítulo 2

Quando abri os olhos, o teto branco do hospital foi a primeira coisa que vi.

O cheiro de desinfetante enchia o ar, um cheiro que eu odiava.

O meu marido, Pedro, estava ao lado da cama, a descascar uma maçã com uma faca pequena, com a cabeça baixa e uma concentração que ele nunca me dedicou.

A lâmina movia-se lenta e cuidadosamente, a casca da maçã a cair numa espiral contínua e perfeita.

"Acordaste, Inês?"

A sua voz era suave, mas soava distante, como se viesse de outro mundo.

"Onde está o nosso filho?" perguntei, a minha voz rouca e fraca.

Pedro parou o que estava a fazer. Ele não me olhou, continuou a encarar a maçã meio descascada na sua mão.

"O médico disse que o bebé nasceu prematuro, o coração dele era muito fraco."

Ele fez uma pausa, colocou a faca e a maçã no prato ao lado.

"Ele não sobreviveu."

As suas palavras foram calmas, demasiado calmas. Não havia dor na sua voz, apenas uma constatação de um facto.

O meu mundo desabou. O ar nos meus pulmões desapareceu. A dor no meu abdómen da cesariana não era nada comparada com o vazio que se abriu no meu peito.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto, silenciosas e quentes.

Eu tinha carregado aquele bebé durante oito meses, senti-o a mexer-se, a chutar. Ele era real. Ele era o nosso filho.

"Porque é que não o salvaste?" a minha voz saiu como um sussurro quebrado. "Tu és médico, Pedro. Tu podias tê-lo salvo."

Finalmente, ele levantou a cabeça e olhou para mim. Os seus olhos estavam frios, sem qualquer emoção.

"Inês, eu fiz o que pude. Mas a Eva estava em trabalho de parto ao mesmo tempo, na sala ao lado. A situação dela era muito mais crítica. O bebé dela estava em perigo."

Eva. A sua ex-namorada. A mulher que ele nunca esqueceu.

"Então escolheste-a a ela," afirmei, sem fazer uma pergunta. A verdade atingiu-me com a força de um soco. "Tu escolheste salvar o filho dela em vez do nosso."

"Não sejas irracional," ele disse, o seu tom a ficar mais duro. "Eu sou médico. Tive de tomar uma decisão profissional. A Eva e o bebé dela precisavam de mim."

"E eu? E o teu filho? Nós não precisávamos de ti?"

O meu telemóvel na mesa de cabeceira vibrou. Era uma mensagem da minha sogra, a mãe do Pedro.

"Inês, querida, soube do que aconteceu. Sinto muito. Mas graças a Deus o Pedro estava lá para salvar o pequeno Lucas. Ele é o primeiro neto da nossa família. Estamos todos tão felizes."

Lucas. O nome do filho da Eva. O primeiro neto da família deles.

O meu filho, que nem sequer teve a oportunidade de ter um nome, não era nada.

Um riso amargo escapou-me. Então era assim. Eu e o meu filho éramos o sacrifício necessário para a felicidade deles.

"Pedro," eu disse, a minha voz surpreendentemente firme. "Quero o divórcio."