Seguir
Capítulos
Compartilhar
Capa do romance A Prioridade Dele

A Prioridade Dele

Grávida de oito meses, Clara sofre um grave acidente, mas o marido, Miguel, recusa-se a ajudá-la para acudir a uma amiga. Abandonada nas ferragens, ela desperta no hospital com a notícia devastadora da perda do filho. Diante da frieza dele e das ofensas da sogra, Clara percebe que a lealdade de Miguel esconde segredos sombrios. Decidida a retomar sua vida, ela apaga o passado e busca o divórcio, transformando seu luto em um inabalável desejo de justiça e libertação.
Capítulos
Compartilhar

Capítulo 2

A chapa de metal do carro gemeu, prendendo a minha perna.

O cheiro a queimado e a humidade do nevoeiro enchiam o ar.

Lá fora, só se ouviam gritos e o som de mais colisões.

Um engavetamento na autoestrada.

A minha mão tremia, mas eu tinha de ligar ao meu marido, Miguel.

Eu estava grávida de oito meses. O nosso bebé.

O telefone chamou uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu. O barulho de um videojogo soava ao fundo.

"Clara? O que se passa? Estou ocupado."

A sua voz era impaciente.

"Miguel, tive um acidente. Na A1. Um engavetamento enorme."

A minha voz falhou.

"Estou presa. A minha perna... dói muito."

Houve uma pausa. O som do jogo parou.

"Acidente? Estás bem? O bebé está bem?"

"Não sei, Miguel. Preciso de ti. Estás perto, não estás? Disseste que ias visitar a tua mãe hoje."

A casa da mãe dele ficava a dez minutos daquele troço da autoestrada.

Ele hesitou. Foi uma hesitação que durou uma eternidade.

"Clara, não posso ir agora. A Sofia está aqui."

Sofia. A sua melhor amiga de infância. A rapariga que ele sempre protegeu.

"Ela teve um ataque de pânico por causa do nevoeiro. Não a posso deixar sozinha, estás a perceber? Ela está muito assustada."

O meu cérebro não conseguia processar as palavras dele.

"Um ataque de pânico? Miguel, eu estou num acidente de carro! Estou a sangrar."

"Calma, não sejas dramática," disse ele, a sua voz a ficar mais fria. "Já chamei uma ambulância para ti. Eles estão a caminho. Devem ser mais rápidos do que eu."

Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Sofia.

"Miguel, quem é? Diz-lhe para não te chatear. Preciso de ti aqui."

Ele não respondeu à Sofia. Em vez disso, disse-me a mim: "Ouve, os paramédicos vão tratar de ti. Liga-me quando chegares ao hospital. Tenho de ir. A Sofia precisa de mim."

Ele desligou.

O telemóvel caiu da minha mão.

A dor na minha perna era forte, mas a dor no meu peito era sufocante.

Olhei para a minha barriga.

"Aguenta, meu amor," sussurrei. "O papá está ocupado."

Depois, tudo ficou escuro.