Seguir
Capítulos
Compartilhar
Capa do romance A Voz da Prova

A Voz da Prova

Presa em uma inundação em Lisboa e prestes a dar à luz, Laura implora por socorro, mas seu marido, Tiago, a abandona para acudir um pequeno ferimento de sua meia-irmã. O trauma resulta na perda do bebê. Diante da frieza da família, a dor de Laura se transforma em sede de justiça. O que Tiago esqueceu é que as chamadas foram gravadas por um sistema que ele mesmo instalou. Com a prova da negligência em mãos, ela decide lutar pelo divórcio e expor a verdade cruel.
Capítulos
Compartilhar

Capítulo 2

A água já batia na porta do carro, e eu não conseguia abri-la. A chuva lá fora era uma parede de água, o céu estava escuro como a noite, embora fosse apenas o meio da tarde. O meu telemóvel tinha apenas quinze por cento de bateria.

Liguei ao meu marido, Tiago, pela décima vez.

A minha barriga de oito meses estava apertada contra o volante, e o bebé mexia-se, agitado. O pânico dele alimentava o meu.

Finalmente, ele atendeu. O som da sua voz era distante, abafado por outro som, um choro.

"Laura? O que se passa? Estou ocupado."

"Tiago, o carro ficou preso na inundação na Baixa," eu disse, a minha voz a tremer, "A água está a subir muito depressa, não consigo sair."

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi a voz da sua meia-irmã, Catarina, a soluçar alto.

"Oh meu Deus, Tiago, e se a casa inundar? Eu não sei nadar!"

A voz do Tiago voltou para mim, cheia de impaciência.

"Laura, liga para os bombeiros. O que é que eu posso fazer? A Catarina torceu o tornozelo a descer as escadas, e está a ter um ataque de pânico por causa da tempestade. Não a posso deixar sozinha."

"Ligar para os bombeiros? Eu já liguei, a linha está completamente congestionada! Tiago, por favor, eu estou com medo."

O bebé chutou com força, uma dor aguda atravessou-me o ventre. Eu gemi.

"Estás a exagerar," ele disse, a sua voz fria, "És uma adulta, Laura, resolve isso. Tenho de desligar, a Catarina precisa de mim."

"Não, Tiago, espera-"

Mas ele já tinha desligado.

Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. Sozinha. Ele escolheu-a a ela. Ele escolheu a sua meia-irmã frágil em vez da sua mulher grávida presa numa inundação.

A água começou a entrar no carro pelos vãos da porta, fria contra os meus pés. O meu mundo estava a encolher para aquele pequeno espaço, a encher-se de água e desespero.

Tentei ligar outra vez, e outra. A chamada ia diretamente para o correio de voz. Ele tinha desligado o telemóvel, ou talvez me tivesse bloqueado.

O meu corpo inteiro começou a tremer, não apenas de frio, mas de uma compreensão terrível e clara.

Eu e o meu filho não éramos a sua prioridade. Nunca tínhamos sido.