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Capa do romance Acordo com o Inimigo

Acordo com o Inimigo

Luna jamais esqueceu a humilhação pública causada por Caio Ventura na faculdade. Anos depois, buscando estabilidade, ela aceita cuidar de um milionário misterioso, apenas para descobrir que o homem debilitado é seu antigo carrasco. Presos por um contrato e vivendo sob o mesmo teto, o ódio mútuo evolui para uma tensão perigosa. Enquanto Luna lida com o desejo proibido, segredos sombrios de Caio ameaçam revelar que o passado é bem mais complexo do que ela imaginava.
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Capítulo 3

O segundo dia começou cedo, com a luz invadindo o quarto por entre as frestas da cortina pesada. Luna acordou assustada, com a estranha sensação de estar num lugar onde não pertencia. O som abafado de passos no corredor a lembrou: era real.

Vestiu uma roupa simples, prendeu o cabelo e desceu as escadas, pronta para enfrentar o "paciente". O contrato dizia que ela deveria cuidar da fisioterapia básica, administrar os remédios, monitorar os sinais. Mas não dizia como lidar com o sarcasmo crônico e o veneno que Caio Ventura carregava no olhar.

Na sala de estar, o encontrou na mesma posição da noite anterior: em frente à lareira, cadeira de rodas ao lado do sofá, olhos perdidos na chama imaginária de uma lareira apagada.

- Bom dia - ela disse, com esforço.

- Depende do ponto de vista.

- O meu é de quem vai passar o dia tentando não jogar uma almofada na sua cara.

- Que doce.

Ela caminhou até ele, abrindo uma maleta com os equipamentos.

- Vamos começar com os exercícios. Fisioterapia leve. Braços e ombros primeiro. Depois, pernas.

- Não estou a fim.

- Que pena. Não é opcional.

Caio girou o rosto lentamente em direção a ela, como se a desafiasse.

- Você não manda em mim.

- Não, mas seu contrato com a clínica me dá autonomia para te tratar. Ou prefere que eu chame a enfermeira chefe?

Ele praguejou em voz baixa, mas estendeu os braços.

- Faça o que quiser.

- Que bom que concordamos.

Durante os primeiros movimentos, Luna manteve o foco no trabalho. Alongamentos, estímulos circulatórios, flexão. A musculatura de Caio ainda estava forte, apesar da paralisia parcial. Ele mantinha a postura rígida, como se estivesse em constante disputa com o próprio corpo.

Mas foi quando ela se abaixou para iniciar os estímulos nas pernas que a tensão se instalou.

- Não. Isso não.

- Caio, você precisa. É parte do tratamento.

- Eu disse que não.

Ela ergueu os olhos para ele. O olhar estava escuro, tempestuoso. Mas havia algo mais por trás daquela resistência: medo. Vergonha.

- Você tem duas opções - disse, com calma. - Pode lutar contra mim e piorar seu estado... ou confiar. Só um pouco.

- Você acha que eu vou me humilhar na sua frente?

- Não acho nada. Só estou tentando te ajudar.

Houve um silêncio pesado. Então ele desviou o olhar e murmurou:

- Fecha a porta.

Ela obedeceu. Quando voltou, Caio já havia retirado o cobertor que cobria as pernas. Os músculos inferiores estavam mais magros do que deveriam, denunciando o tempo de inatividade. Luna respirou fundo e ajoelhou-se à frente dele, com a delicadeza de quem lida com cacos de vidro.

O toque foi leve. Preciso. Profissional.

Mas cada segundo parecia um teste.

- Você ainda sente isso? - ela perguntou, pressionando a lateral da coxa.

- Um pouco. Como se o corpo fosse de outra pessoa.

Ela assentiu.

- Vamos estimular as terminações nervosas. Pode doer.

- Dor eu aguento. O que não aguento é a pena.

- Ótimo. Porque eu não tenho pena de você. - Ela ergueu os olhos, firme. - Tenho um passado entalado na garganta e um trabalho a cumprir. Vamos manter assim?

Por um segundo, ele quase sorriu.

No fim da sessão, Caio parecia exausto, mas menos defensivo. Luna se levantou, recolheu os materiais e se preparava para sair, quando ele disse:

- Você odeia estar aqui, né?

- Menos do que odeio lembrar o motivo de estar aqui.

- Você ainda guarda mágoa?

- Não. - Ela olhou sobre o ombro. - Mágoa seria se eu ainda me importasse com você. E eu não me importo.

Mentira.

Ela saiu antes que ele pudesse responder. E só no quarto, sozinha, ela percebeu que as mãos tremiam.

Caio ficou em silêncio por um longo tempo depois que ela saiu.

Luna agora era uma mulher. Forte. Segura. Mas o jeito como ela evitava olhar diretamente para ele... entregava que havia rachaduras ali também.

E talvez, só talvez, ele ainda soubesse onde apertar para fazê-las sangrar.

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