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Capa do romance Renascida das Águas

Renascida das Águas

Após sobreviver a um túnel inundado e perder seu bebê, Sofia acorda do coma para descobrir a traição de Diogo. Enquanto ela lutava pela vida, o marido ignorou seus apelos para socorrer a meia-irmã dela, Clara. Diogo envia dinheiro para se redimir, mas Sofia não aceita. Mesmo sob pressão da mãe para perdoar, ela decide romper os laços. Ao ver Clara exaltar Diogo como herói nas redes sociais, Sofia escolhe o divórcio e jura retomar o controle de seu destino.
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Capítulo 2

A primeira coisa que fiz ao acordar do coma foi pedir o meu telemóvel.

A enfermeira hesitou, mas eu insisti.

O meu corpo doía por todo o lado, e a minha cabeça latejava com uma dor surda.

O ecrã do telemóvel iluminou-se, mostrando a data. Eu tinha estado em coma por três dias.

Três dias.

Durante a tempestade mais forte do século, eu fiquei presa num túnel inundado.

Tentei ligar para o meu marido, Diogo, inúmeras vezes.

Ele nunca atendeu.

Agora, o meu histórico de chamadas estava limpo, apagado por alguém. Mas a memória estava gravada na minha mente.

Havia dezenas de mensagens não lidas. A maioria era de amigos e familiares distantes, a perguntar se eu estava bem.

Nenhuma era do Diogo.

Em vez disso, vi uma transferência bancária dele. 50.000 euros.

A mensagem que a acompanhava era curta.

"Sofia, desculpa. A Clara precisava mais de mim. Usa este dinheiro para a tua recuperação."

Clara. A minha meia-irmã.

A mulher que a minha mãe sempre me disse para tratar bem, porque a vida dela era difícil.

Senti uma vontade súbita de rir.

A minha mãe entrou no quarto nesse momento, com os olhos vermelhos e inchados.

"Sofia, finalmente acordaste! Estava tão preocupada."

Ela tentou abraçar-me, mas eu afastei-me. O movimento fez o meu corpo inteiro protestar de dor.

"Onde está o Diogo?" perguntei, a minha voz rouca e fraca.

A minha mãe desviou o olhar.

"Ele... ele esteve muito ocupado. A Clara... ela caiu e partiu uma perna durante a tempestade. E o cão dela, o Trovão, ficou muito doente. O Diogo esteve a cuidar deles."

"Ocupado," repeti, a palavra soando vazia. "Então ele não teve tempo para atender as chamadas da sua mulher que estava a morrer?"

"Não fales assim, Sofia!" A voz da minha mãe subiu de tom. "A Clara estava em pânico. Ela estava sozinha! Tu sabes como ela é frágil."

Eu olhei para ela. Para a minha própria mãe, a defender o homem que me deixou para morrer.

"E eu? Eu não estava sozinha? Eu não estava em pânico?"

"Os socorristas salvaram-te, não foi? Estás viva," disse ela, como se isso resolvesse tudo.

"Sim. Estou viva," concordei, um frio a espalhar-se pelo meu peito. "Sem bebé."

A cara da minha mãe desfez-se. "Sofia, o médico disse... com o choque e a falta de oxigénio... o bebé..."

Eu já sabia. Eu sentia o vazio dentro de mim. O vazio que antes estava cheio de esperança.

"Eu quero o divórcio," disse eu, com uma clareza que me surpreendeu.

A minha mãe ficou chocada.

"Divórcio? Estás louca? Por causa disto? O Diogo ama-te! Ele só cometeu um erro!"

"Um erro?" A minha voz tremeu. "Ele escolheu. Ele escolheu a perna partida da Clara e o cão doente dela em vez da minha vida e da vida do nosso filho."

"Não sejas tão dramática! Ele não sabia que a situação era tão grave!"

"Eu liguei-lhe dezoito vezes, mãe. Dezoito. Ele desligou-me na cara. Disse-me para esperar pelos socorristas. Ele sabia."

O silêncio no quarto era pesado.

O meu telemóvel vibrou. Era uma notificação do Instagram.

Uma foto publicada pela Clara.

Ela estava sentada numa cadeira de rodas, com a perna engessada. O Diogo estava ajoelhado à sua frente, a dar comida ao cão dela, o Trovão, com uma colher.

A legenda dizia: "O meu herói. Salvou-me a mim e ao Trovão. Não sei o que faria sem ti, Diogo. ❤️"

Mostrei o telemóvel à minha mãe.

Ela olhou para a foto, e depois para mim, sem palavras.

Fechei os olhos.

"Sai," sussurrei. "Por favor, sai."

Ela não se mexeu, então eu repeti, mais alto.

"SAI!"

A minha mãe recuou, assustada, e saiu do quarto a tropeçar.

Fiquei sozinha com o som da minha própria respiração.

O divórcio não era uma questão. Era uma certeza.

A única coisa que me ligava ao Diogo tinha desaparecido. Agora, só restava o nojo.